Diário de Viagem: Trekking pelo País Yali - Papua Ocidental (ex Irian Jaya) - Oceania

Viagem a Filipinas, Indonésia, Papua Ocidental e Malásia, que gerou a publicação do livro Selvas y Montañas na Espanha Nunca antes havíamos pagado a ninguém como porteadores. Senti-me a princípio um pouco mal com isso de que carregassem meu peso. Mas foi importante ter alguém que conhecesse o caminho e que nos introduzisse às aldeias. Era como um diplomata também. Pensando nisso depois de algum tempo percebo que na verdade foi uma lição de humildade. Além de imprescindível por uma questão de segurança, levar os porteadores foi um aprendizado. Sua força e gentileza, seus cuidados e a maneira como nos protegeram em diversos momentos tensos do trekking, onde as fotos de Japi, meu companheiro de viagem, eram indesejadas ou mesmo nossa passagem muito suspeita. E tendo que negociar tudo, em indonésio, aprendemos muito. Sobre eles, sobre os papuas, sobre nós. São maneiras muito distintas de se entender as relações humanas, foi difícil para nós lidar com eles. Ficamos tão desapontados com suas mentiras! Mas são ao mesmo tempo adoráveis em sua ingenuidade.

Estou no honai (pequena moradia de sapê), três rapazes estão tocando violão, um dos instrumentos pequeno como um cavaquinho, "presentes" de algum missionário. Estão cantando músicas em seu idioma, cantam sempre em um tom muito alto. Adoram e levam o maior jeito pra música, uma surpresa muito boa. Esta canção chora pela independência do seu país - a Papua Ocidental. Hoje vivendo um terror semelhante ao Timor do Leste. Alias, sob a dominação do mesmo país: a Indonésia. Sempre canto pra eles também. Adultos e crianças morrem de rir quando falo qualquer coisa, escondendo com a mão boca e olhos "timidamente". Uma graça! Acaba de chegar a batata, já cozida, ainda quente. Vamos todos comer. Arg, odeio batata doce. Chega mais um no honai. Olha pra mim, me dá sua mão, traz sua batata doce e passa a conversar com os outros. E fumam tabaco. E riem de mim, só ouço um contando sobre quem somos e as risadas. Riem do meu piercing, de que queremos caminhar, das redes, de quando falamos indonésio... Passa um cãozinho todo cabreiro aqui na porta... pobrezinho, aqui também são apreciados...

Eu pensei que em Iogosen seria diferente, mas aqui o primeiro que se vê do alto é o telhado de zinco da igreja, a única construção que se destaca. Tem janelas de vidro e fica bem no meio do povoado. Quase não são vistos os pequenos honais, escondidos entre a vegetação e o relevo. Iogosen fica em um lugar incrível. É um platô com uma vista maravilhosa já voltada para o vale que é o início do país Yali. São vertentes com uma vegetação exuberante entrecortada com terraços de cultivo de batatas doces. A vila tem por traz uma cachoeira bastante alta, em meio a mais terraços, ainda mais expostos. Foram os de maior inclinação que vimos. As casas, ou melhor, os honais, distribuem-se em grupos de três ou quatro onde vivem as famílias poligâmicas. Os papuas não possuem quase nenhum instrumento. Salvo um facão ou uma pá.... não vi muito mais do que isso. Eles não devem acreditar na quantidade e diversidade de coisas que usamos e necessitamos nós “civilizados”. Lanterna, roupas para trocar, livros, talheres, filtro de água, repelente, mosquiteiro, rede de dormir, navalha para barba, papel higiênico, cantil, casacos, barraca, sacos de dormir, meias!! E olha que eu convenci o Japi a deixar o guarda-chuva – e eu esqueci o penico! Eles caminham sem nada nada. Nem água, nem sapatos. Nem o mais básico. Meu guia só levava uma bolsinha com tabaco e fogo (o nosso, do qual se apossou desde o primeiro momento) e... imaginem... um pente e um espelho... para pentear a barba!!! Quase cai sentada de tanto rir quando um belo dia pela manhã vejo John (nosso porteador) sacar o espelho e pentear-se!! Entrou no honai agora mesmo o pai do John, nosso porteador de nome chiquésimo. Chegou peladão com sua cabaça no pênis, seu fumo e sua conversa fiada, presto tanta atenção nele que quase antecipo o que vai dizer. Estamos a uns 2000 metros de altitude. Daqui pra frente enfrentaríamos as caminhadas mais duras e deslumbrantes, a floresta equatorial muito montanhosa nos trouxe momentos que hoje se perdem entre a realidade e a fantasia...

RITA MAGALHÃES - leciona inglês e espanhol, além de ser tradutora nesses dois idiomas. Nas horas vagas passeia de bicis pela Europa (ou será o contrário?) - Teresópolis/RJ - (21) 3642-2721 / 9210-1852 * ritamaga2003@yahoo.com.br

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