A Cultura

Curioso esse Brasil. De um lado uma riqueza de expressões de sua cultura. De outro, uma pobreza na avaliação dessa mesma cultura.

Um Brasil que não mostra a sua cara. Um Brasil que mostra a sua cara e, ao mesmo tempo, a esconde de si. Um Brasil onde os olhos de sua cara não encontram seus braços e, quando os vêm, não enxergam seus dedos se estendendo por suas mãos. Mãos que aplaudem qualquer coisa produzida em qualquer lugar longe daqui e rotulada “meide-im”. Olhos encantados com o brilho dos espelhinhos e miçangas, que podem ser trocadas por coisas de valor como, entre outras, o amor por si.

Nossos olhos não conseguem encontrar-nos e, no espelho, vemos não a nossa, mas a imagem de outra pessoa que dizem sermos nós. Onde a nossa história? Não (t)(v)emos um passado e, certamente, não (t)(v)eremos um futuro. Permaneceremos exatamente como nos querem, eternamente deitados em berço que foi, um dia, esplêndido, saqueado por nós mesmos em troca de bugigangas e um troquinho,

A nossa diversividade cultural foi construída por pessoas que aqui vieram de tantos distintos lugares, chegando em conveses ou porões, misturando-se, afastando-se, amando-se, odiando-se e deixando-nos uma imensa saudade de algum lugar de onde nunca partimos. Lauro de Oliveira Lima, em Estórias da educação no Brasil: de Pombal a Passarinho, nos fala bem desse sentimento que invade nossa alma.

O colonizador usava como prática misturar as diferentes nações e separar as famílias para evitar a cumplicidade, a identidade que criaria a força para combatê-lo. A fragilidade conseqüente, o desamparo também acabou fazendo morada em nossa alma.

O colonizador fez mais, ele, que não carregava sequer um pequeno embrulho, espalhou aos quatro cantos que o escravo, que trabalhava de sol a sol, era um tremendo vagabundo. E nós acreditamos. Talvez numa tentativa de nos identificarmos com o colonizador e, quem sabe, um dia poder partir desse lugar onde nos cremos degr(e)(a)dados.

Mas, afinal, o que quererá dizer todo esse arrazoado, o que haverá nossa alma, nossas crenças com nossa cultura?

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